Uma história de resiliência

Amy Moura Adkins tem
apenas 21 anos, mas traz consigo uma bagagem de vivências e experiencias que a
maioria das pessoas que conheço não seriam capazes de carregar. Filha dos
empresários Rosangela e Elson, Amy nasceu no dia 22 de junho, no Hospital
Municipal Albert Schweitzer, em Nilópolis, Rio de Janeiro.
Desde muito nova já
apresentava sinais de que o seu gênero não era aquele que foi dito aos seus
pais pelos médicos na sala de parto. Amy nasceu com o órgão sexual masculino,
mas conta que, aos seis anos, já se identificava com o gênero feminino. Seus
pais sempre lidaram muito bem com isso e começaram então a vesti-la também com
roupas femininas. Amy nunca precisou de fato “avisar” às pessoas sobre seu
gênero; era uma coisa natural.
Em Realengo, subúrbio
carioca onde Amy cresceu, as pessoas sempre a trataram por pronomes femininos.
Cantava na igreja evangélica que seus pais frequentavam e tinha uma infância
feliz. Amy seguiu cantando até o momento que os membros da igreja descobriram
sobre sua transexualidade, foi quando então a expulsaram.
No dia 7 de abril de 2011, aos 14 anos, Amy viveu uma tragédia a marcou profundamente. Foi uma das alunas a escapar da chacina que aconteceu onde estudava, na Escola Municipal Tasso da Silveira. O episódio ficou conhecido como Massacre de Realengo. Amy se recorda de tudo que aconteceu naquela manhã. Sua professora fazia a chamada quando um homem bateu na porta da sala de aula. Ao entrar, ele colocou sua mala em cima da mesa e tirou de dentro dela uma arma. A primeira vítima foi uma colega de Amy, Samira. Enquanto todos corriam, Amy e sua melhor amiga, Laryssa, ficaram paradas em suas carteiras, em choque. O assassino atirou em direção à Amy e acertou sua barriga. Sua amiga Laryssa foi atingida no coração e morreu. O assassino chegou em sua sala com a clara intensão de matar as meninas. Ela relembra que o assassino atirava nas meninas mirando em suas cabeças, com o intuito de executá-las, já nos meninos, ele tentava acertar o tórax, apenas para feri-los, imobilizar. Amy começou então a se perguntar por que não morreu naquele dia. Não que ela quisesse realmente morrer, mas o impacto da tragédia a fez passar por uma imersão em seu psicológico. Acreditava que não tinha sido alvejada pelo assassino porque se assemelhava a um menino, já que para ela, ficou claro que os alvos eram as meninas. Amy começou então a experenciar uma profunda disforia de gênero. À época, Amy não fazia uso de hormônios (e não o faz até hoje), mas seu corpo se assemelhava ao corpo de uma mulher, sua voz era feminina, tinha cabelos longos. Mesmo com essas características, Amy acreditava que o motivo pelo qual não morreu naquela manhã era sua aparência. Passou vários meses enclausurada em sua casa. Acreditava que as pessoas a viam como homem.
Um tempo depois da tragédia, a família de Amy decidiu ir para Cuiabá, cidade natal da mãe dela. Apesar do tempo passado, Amy ainda lutava com a definição de seu gênero. Em Cuiabá, as pessoas não entendiam seu corpo. Amy já não era mais a menina da rua Kennedy que todos conheciam. Seu corpo estava se transformando e ninguém sabia ao certo se ela era menina ou menino, situação que voltou a mexer profundamente com seu psicológico.
Em 2012 Amy iniciou seu primeiro relacionamento. Seu namorado, homem heterossexual, a apresentou para a família, entendia e aceitava a sexualidade dela. O namoro não durou muito tempo, pois ele se mudou para Brasília depois de passar na universidade. Em 2013 Amy conheceu outro rapaz, e, com ele, vieram outras situações traumáticas. Amy passou a viver em um relacionamento abusivo. O homem, com quem ela dividiu a vida durante três anos, a mantinha em um relacionamento extremamente abusivo. A maltratava, espancava e a obrigava a usar drogas. A essa altura, Amy já sabia que não o amava, mas precisava desesperadamente de uma companhia, já que se sentia muito sozinha e não tinha amigos. Amy começou a cheirar cocaína, e era obrigada a injetar heroína. A situação continuou até Amy sofrer uma overdose e ser levada às pressas por uma ambulância até o hospital. Dias depois, Amy descobriu que seu namorado mantinha um relacionamento com outra pessoa além dela. Era uma menina cis. Ela foi confrontá-lo e recebeu insultos, ouviu que ela não passava de um “depósito de porra”, que ninguém seria capaz de amar uma travesti e que sua “raça” era fraca. Ela resolveu então encerrar os abusos, libertando-se do relacionamento tóxico em que percebeu que estava.
Apesar das dificuldades que passou, Amy foi conseguindo se recuperar e começou a fazer amizades na cidade, fato que a ajudou a reerguer-se. Amy relata que ainda é muito difícil se posicionar e ser respeitada como mulher trans na sociedade e sabe que as inseguranças sempre vão existir, mas com o tempo suas feridas vão cicatrizando e com a ajuda dos que lhe querem bem, Amy segue olhando para frente, mirando o futuro e as alegrias que ele há de trazer. Amy é mulher, é forte, é sobrevivente. A luta continuará.
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