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Dona de histórias
Dona Marli. Dona de si. Dona de uma força incrível. Faxineira, confeiteira, cozinheira, cabeleireira, pintora, catadora de latinha, revendedora, artesã, ambulante... É dona de uma lista de empregos e de histórias que construiu durante seus 60 anos de vida. Ela é Marli de Lurdes Lemanski.
Marli como ela mesma diz: "Eu sou uma flor, não sou?!"
Parque Massairo Okamura - Cuiabá/MT (Foto: Jhenifer Heinrich)
Foi em 1985, depois da morte de sua mãe, que Marli decidiu fugir de casa, sua terra natal, Independência, cidade no interior do Rio Grande do Sul. E foi só na metade da estrada que telefonou para um dos irmãos e avisou que estava a caminho do Mato Grosso com seu então namorado, Elvio dos Santos, mais conhecido como “Gaúcho”. Acrescente dona do próprio nariz à lista também: “saí fugida”, conta ela, rindo e com uma expressão de menina sapeca. Foi na padaria onde trabalhava, chamada “Padaria do Gordo” que ela serviu o pingado e o pão com margarina para o futuro pai de suas filhas.

Os dois não possuíam “muito estudo”, mas tinham, de sobra, muita coragem e disposição para trabalhar. Foi assim que decidiram ir para Mato Grosso, onde diziam boatos que haveria mais possibilidades de ganhar dinheiro, já que era um Estado em crescimento.

Nobres foi a primeira parada, uma cidadezinha a 120km da capital do cuiabana. Viveram lá entre 1986 e 1988 ano em que nasceu a primeira filha,  Sayonara. Lá, Marli abriu seu primeiro negócio, um salão de beleza onde, inicialmente, trabalhou como manicure. Só mais tarde foi a Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, fazer seu primeiro curso de cabeleireira. Ainda no primeiro ano morando em Mato Grosso, o marido continuava a trabalhar como caminhoneiro, viajando entre as terras mato-grossenses e gaúchas transportando madeira e frutas.

Depois do nascimento da filha, Marli queria ser mais uma vez, dona. Dona de uma casa. Ela sabia que precisava de um lugar fixo para criar Sayonara em melhores condições. A cidade escolhida foi Sinop, hoje conhecida popularmente como “Capital do Nortão”, que na época era uma cidade pequena e recém-colonizada.

Em exatas 44 parcelas, “mas teve uma entrada!”, o casal sul-rio-grandense comprou o terreno, que hoje faz parte do centro da cidade de Sinop. Marli conta que mesmo sem nenhum dinheiro, “tinha que tirar um pra fazer dois”, eles ergueram um barraco de madeira com doações feitas por amigos e por “anjos que sempre apareceram para mim".

Em Sinop, 1989, Marli não conseguiu abrir outro salão de beleza e então começou a trabalhar como consultora de cosméticos e vendedora doces. Sua especialidade? Cocadas (famoso doce feito com coco ralado). Batendo de porta em porta nas mais de 100 madeireiras que haviam na cidade e oferecendo seus produtos.  Uma verdadeira equilibrista, carregando seus produtos numa caixa pendurados em um de seus ombros enquanto no outro, carregava a filha. Foi com esse trabalho que ela conseguiu pagar o terreno onde mora até os dias de hoje.

Como a condição financeira era apertada, seu esposo descobriu uma oportunidade diferente de trabalho com um amigo: Ambulante. Como Marli sempre teve mão boa na cozinha e sabia fazer alguns doces, decidiram ir vender em uma “festa de peão” da época, (a Exponop). Encontraram, assim, uma fonte rápida (e muito cansativa) de ganhar dinheiro.

Com o pé na estrada, eles trabalharam como ambulantes em vários eventos. O “trecho” é o nome que se dá a quem vive na estrada, de cidade em cidade, de festa em festa, montando sua barraca e vendendo seja alimento, seja arte. Com a barriga encostada no fogão, ou melhor, na “banca”, assim chamado por ela, é que Marli preparava a massa de churros, fazia cocadas, quebra-queixo, maça do amor, coco caramelizado... verdadeiros quitutes.

Em 1995, nasceu Morgana, a segunda filha e três anos mais tarde, Elediana, a última filha do casal. Elediana mal chegou aos seis meses de vida, nascida com uma Imperfuração anal - um defeito congênito, quando o ânus está bloqueado ou não tem abertura – e que mesmo após algumas cirurgias, acabou desenvolvendo pneumonia durante a recuperação e sem assistência médica adequada, veio a óbito. “Ah, é a falta de condição, pois como que ia salvar a menina se não tinha médico, hospital? Cada médico falava uma coisa e quando começou a melhorar, ela pegou uma infecção hospitalar”, diz a mãe.

Uma casa. Uma mulher. Duas crianças. Marli passava a maior parte do tempo apenas com as filhas, já que o pai continuava no “trecho”, trabalhando de cidade em cidade, de festa em festa. Em 1999, logo depois da morte de Elediana, que em uma das viagens a trabalho – no trecho – foi que Elvio simplesmente parou de dar notícias. Nem notícias, nem satisfação, nem assistência financeira  e nem, muito menos, amor para as filhas, Sayonara e Morgana, agora com 11 anos e três anos de idade, respectivamente. “Eu não sabia se ele estava vivo, até pensei que tivesse morrido".

Mãe. Solteira. Mais um título que Dona Marli carregou durante a vida e que foi demonstrado com olhares de reprovação por vizinhos, amigos e família. Um ano se passou até Elvio voltar. Acompanhado da então namorada e de um bebê recém-nascido. 

Marli fez histórias. Teve diversos empregos. Enfrentou a fome, o frio, a traição, a depressão, a morte. E, mesmo soando clichê, sempre acreditou num ser superior que estivesse guardando por nós. Um exemplo legítimo de mulher dona. Dona da coragem. Dona de todo o amor que tem por suas filhas que a mantiveram firme em cada luta diária. Ela é Dona, Marli.


À esquerda, é Sayonara, sua primogênita, hoje é enfermeira. À direita, Morgana, modelo e estudante de Jornalismo.
Parque Massairo Okamura - Cuiabá/MT. (Foto: Jhenifer Heinrich) 

Focas da Federal

“Eu ainda acredito que, se seu objetivo é mudar o mundo, o jornalismo é uma arma mais imediatas de curto prazo”. – Tom Stoppard

Um comentário

  1. Texto incrível! De uma sensibilidade muito grande que abraço o leitor. Parabéns para a mulher guerreira personagem do texto, Dona Marli. E parabéns também para a autora do texto!

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