A luta pela cultura das ceramistas
Dona Alice Conceição
A luta pela cultura das ceramistas
Artesã
da comunidade São Gonçalo Beira Rio atravessa barreiras para conquistar espaço
e manter a produção
O Rio Cuiabá há
tempos foi o principal meio de transporte e exportação da região. Além de promover
a culinária dos peixes e diversas receitas cuiabanas, às margens do rio ainda vivem
os povos ribeirinhos, que mantém a cultura local. Na comunidade São Gonçalo
Beira Rio, ainda é possível ver expressões milenares, como a produção da
cerâmica.
Extrai, quebra,
amassa, molda e queima. O processo longe do comum e nada leve são perpassados
pelas ceramistas da comunidade, localizada na beira do rio Cuiabá, na própria
capital. Um dos últimos refúgios desse modo de vida na cidade.
O artesanato
produzido por sete mulheres do bairro representa a cultura cuiabana, além de resgatar
a pesca, a paisagem, a gastronomia, a dança e os instrumentos musicais. O
trabalho é exposto e vendido no próprio local.
Como uma boa
cuiabana, Alice Conceição, de 71 anos, recepciona o público ansioso em admirar
seu trabalho. De braços abertos e com muita hospitalidade, característica dos
ribeirinhos, vai explicando todas as etapas do processo da produção manual do
barro. A artesã foi a única, entre os 4 irmãos, que aprendeu a produzir, desde
moça, o artesanato.
Antes, a
produção era dificultada pela coleta do barro. Através da canoa, as ceramistas
atravessavam o rio e trabalhavam para retirar a matéria prima. Além da demora,
o processo exigia força e disposição.
Entre uma e outra
residência, que estão alocadas em um único quintal, a artesã percorre curtos
passos até chegar ao forno. Nos fundos, as peças vão sendo acomodadas com
delicadeza, a mesma que estampa o olhar dos vizinhos que observam o ato
costumeiro. Só serão retiradas no fim do dia, prontas para a exposição.
Dona Alice
relembra que a única renda familiar era da cerâmica, apesar do trabalho pesado
e do pouco retorno financeiro, dedicava-se com amor ao trabalho ensinado pela
mãe. “É um trabalho pesado, mas era o que tínhamos na época”.
A produção que
antes era “dificultosa”, hoje se torna um pouco mais leve. A retirada do barro
é terceirizada, que vendida às ceramistas contam com a ajuda dos maridos para
quebrar e amassar a matéria prima.
Com delicadeza,
as mulheres moldam a argila de acordo com a demanda. As que possuem o
conhecimento, contam com a ajuda de um torno. A máquina permite que as peças
sejam moldadas sem a raspagem manual. A produção é queimada no forno à lenha,
com cerca de 50 peças por fornada. Durante o dia todo, as cerâmicas ficam
aquecidas e são retiradas ao fim do dia.
Cultura em extinção
Apaixonada pelo
trabalho, Dona Alice só se entristece ao relembrar que o artesanato não é
produzido por nenhum dos filhos. “Apenas uma de minhas filhas demonstrou
interesse pela produção, mas depois percorreu outros caminhos”. O motivo? “Na
verdade, eu não incentivo muito. O trabalho é pesado e o retorno financeiro não
é muito bom”.
Mesmo sem
descentes artesãos, as ceramistas acreditam que o trabalho continua. “Eu amo o
que faço, aprecio cada detalhe das peças que produzo com muito amor”.
Como motivo de
orgulho para diversos moradores, órgãos representativos da região buscam
maneiras de resgatar a cultura cuiabana. “Atualmente trabalhamos com projetos
de capacitação, infraestrutura que caminha junto à sustentabilidade e
divulgação. Vários projetos já foram desenvolvidos na região e no momento buscamos por um novo salto, para colaborar com a
nossa cultura”, comenta o secretário de cultura, esporte e turismo, Francisco
Vuolo.
Apesar de todos
os deslizes, a cultura vem buscando maneiras de se consolidar e apresentar nos
diversos meios a sua representatividade em uma linguagem própria e única.
Serviço
A loja de
artesanatos da comunidade São Gonçalo Beira Rio funciona das 9h às 17h, de
segunda à segunda.




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