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Mato Grosso é o estado com mais processos de violência doméstica

Sílvia* e Maria* compartilharam suas histórias de abuso físico, sexual e psicológico

Reprodução
Sílvia*, 41, levou o primeiro tapa na cara de seu marido durante uma briga no carro, na presença de seus dois filhos. Já Maria*, 40, percebeu que havia se casado com seu agressor depois que ele, por ciúmes, disparou uma arma em direção à janela de sua casa. A violência doméstica é uma constante na vida das mulheres mato-grossenses.

Segundo pesquisa divulgada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) neste ano, Mato Grosso é o estado com mais processos relacionados a este tipo de crime, ultrapassando, inclusive, estados considerados de grande porte como Rio de Janeiro e São Paulo. Com 26,5 processos a cada mil mulheres, Mato Grosso é seguido por Mato Grosso do Sul, com 21,1, Distrito Federal, com 20,8 e Rio de Janeiro, com 20,4.

Sílvia e Maria são apenas algumas das personagens deste enredo que está longe de chegar ao fim. Elas decidiram compartilhar suas histórias sob a segurança do anonimato, pois ainda temem seus agressores.

Em 2004, Sílvia começou a se relacionar com Francisco*, seu ex-marido, e durante dez anos viveu o que chamou de ciclo da violência. Primeiro veio a psicológica, depois da física e por último o abuso contra a filha mais velha.

Seu agressor era usuário de drogas e a batia diariamente quando estava sob efeitos de entorpecentes. Ela alegou, no entanto, que as agressões também ocorriam quando ele estava são.

“Na primeira vez em que ele me bateu eu havia encontrado um pacote de cocaína dentro de casa e disse que queria a separação”, explica. Apesar das agressões psicológicas que aconteciam desde o começo do relacionamento, Sílvia relatou nunca ter pensado que Francisco chegaria a agredi-la, mas desde aquele dia as coisas só pioraram. “Ele já quebrou televisão, computador, geladeira”, contou mostrando uma marca na altura da mão, feita pelo agressor com um golpe de faca.

A vítima, de cabelos pretos e olheiras profundas, relatou que as cicatrizes psicológicas marcam mais do que as físicas. No auge das agressões, ela desenvolveu síndrome do pânico e chegou a pesar 42 quilos. Hoje, tempos depois do ocorrido, ela e seus dois filhos passam por tratamento psicológico a fim de diminuir as chagas da violência doméstica.

Sílvia decidiu denunciar seu agressor em 2014, quando descobriu um diário em que ele relatava ter desejos sexuais pela sua filha Ana*, de 9 anos na época. A vítima relatou em que diversas ocasiões Francisco pedia para que Ana deitasse no sofá para que ela fosse massageada e então abusava da menor apalpando seu corpo.

“Eu já desconfiava, mas sempre que questionava ele dizia que eu estava louca. Quando eu encontrei o diário eu percebi que não. Foi quando eu decidi denunciar”, comentou.

A partir da primeira denúncia, outros três processos foram abertos. Sílvia e Ana foram “amparadas” pela lei por meio de três medidas protetivas: o agressor teve de usar tornozeleira eletrônica, foi proibido de se aproximar das vítimas e as duas, mais o filho de Sílvia com o agressor, Théo*, passaram alguns dias em uma casa de amparo. Sílvia, no entanto, alegou que nenhuma das medidas foi o suficiente para que ela tivesse paz e pudesse se sentir livre. Francisco, segundo a vítima, não carregava a bateria da tornozeleira e continuava transitando livremente em seu bairro com o sentimento da impunidade.

“Eu nunca vou me sentir livre. Eu ando pela cidade pedindo a Deus para que eu não o encontre”, diz. “Se você perguntar para vinte mulheres que denunciaram pela lei Maria da Penha, vinte e uma dirão que ela não funciona na prática”, finalizou.

Já Maria, passou dois anos sob a constante ameaça de Waner dos Santos Neves, seu ex-marido e delegado de Sapezal, cidade no interior de Mato Grosso onde eles moravam. Segundo a vítima, bastava que ela discordasse do agressor em qualquer circunstância para levar um tapa na cara. Além da violência física, Waner costumava agredi-la verbalmente ou com seu silêncio. Quando não a chamava de “vagabunda” ou “puta”, deixava bilhetes no espelho do banheiro dizendo que não queria conversar.

“Não adianta ajoelhar e pedir perdão a Deus se você continua fazendo maldades para os outros”, diz trecho de um dos recados.

A vítima chegou a acreditar que a culpa das agressões seria da depressão e do alcoolismo gerados após ter ele sido exonerado da polícia –e mais tarde recuperado o cargo com uma liminar.

“Ele ficou depressivo. E de vez em quando ele bebia e metia a mão na minha cara. E eu achava que era por conta da depressão. A gente sempre acha que tem um motivo, nunca encarei o problema como eu encaro agora”, contou a advogada.

Na última agressão, em maio de 2017, Maria teve a costela quebrada e ficou com hematomas por todo o corpo. A briga teria sido motivada por ciúmes e a vítima, muito menor do que o agressor, não teve como se defender. Em uma cidade rodeada pelo protecionismo dos poderosos, nem mesmo a PM atendeu ao chamado de Maria por medo do delegado. “Para eles, eu poderia morrer e o importante seria evitar conflito com o Waner”, explica. Foi necessário que Maria viesse para Cuiabá registrar o boletim de ocorrência e buscar ajuda no Núcleo de Combate à Violência Doméstica da Defensoria Pública.


Violência Cultural

A defensora pública Rosana Leite acredita que os casos de violência doméstica sempre aconteceram, mas que a Lei Maria da Penha, implementada em 2006, serviu para dar luz a esses casos. Para ela, Mato Grosso lidera o ranking de processos e ocupa o terceiro em casos de feminicídio – segundo dados do Ipea - por uma associação entre cultura patriarcal e desinteresse do estado nas políticas públicas de proteção à mulher.

No quesito delegacias, por exemplo, Mato Grosso possui apenas uma inteiramente destinada às mulheres, em Barra do Garças, enquanto que as outras acumulam funções de defesa de idosos, crianças e adolescentes. Segundo ela, a verba do governo federal para incentivo à proteção da mulher está sendo utilizada também para essas outras funções.

“Todos os secretários de segurança pública dizem que não há mais orçamento do estado. Nós temos profissionais aguerridos, sensíveis à causa, mas não existe orçamento para manter as delegacias de defesa da mulher como eram antes.”

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados.



Focas da Federal

“Eu ainda acredito que, se seu objetivo é mudar o mundo, o jornalismo é uma arma mais imediatas de curto prazo”. – Tom Stoppard

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